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Catedral
2020
Moro na rua faz tempo, durmo ali perto da praça da Catedral, num banco de concreto que esquenta com o sol do dia. Naquele ano de dois mil e vinte, quando a peste fechou tudo e ninguém mais saía nem pra olhar o céu, fiquei sozinho com os pombos e os anjos.
Era de madrugada, devia ser três e pouco, não tinha viva alma na rua. O vento parou, e o ar ficou grosso, pesado. Levantei a cabeça e vi a catedral acendendo por dentro. Não era luz de vela nem de poste. Era luz azul, saindo das frestas, das cruzes, até do chão. Tudo tremia, mas sem fazer barulho.
De repente, a igreja toda começou a se erguer, devagar, como se tirasse os pés da terra. As árvores não balançaram. Nem os cães latiam. Subiu uns dez, vinte metros, depois sumiu numa fumaça clara, que nem nuvem de remédio fervendo.
Fiquei parado, sem piscar, até o sol nascer.
No outro dia, a catedral tava no mesmo lugar, como se nada. Mas eu sei o que vi.
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